terça-feira, 30 de junho de 2015

Dois Franciscos, dois amigos da natureza

A nova Encíclica tem um poder de revolução cultural bastante significativo.

Francisco de Assis recebeu a missão de reconstruir a Igreja e o Francisco de Roma recebe a mesma incumbência.
Por Vinícius Paula Figueira
Nascido em Assis, Itália, em 1182, São Francisco veio de uma família burguesa, mas entrou para a história como exemplo de desprendimento. Renunciou a tudo o que tinha para se dedicar à vida religiosa. Diante do pai rico, o qual desejava que ele seguisse seus passos, despiu-se completamente, mostrando que o bem maior era o espírito. Sua estima pela irmã natureza cunhou o belo Cântico das Criaturas, na qual ele homenageia a natureza e chama o Sol, a Lua e o vento de irmãos.
Nascido em Buenos Aires, capital da Argentina, em 17 de dezembro de 1936, Jorge Mario Bergoglio entrou para a Companhia de Jesus aos 19 anos de idade. Estudou Teologia e Filosofia, e recebeu a sua ordenação sacerdotal.
No dia 13 de Março de 2013, Bergoglio foi eleito papa pelo conclave para ser o sucessor de Bento XVI. O primeiro papa latino-americano assumiu o nome de Francisco mediante seu apresso pelos pobres, qual Francisco de Assis.
Na última semana, muito particularmente no dia 18 de junho, o santo padre deu de presente ao mundo sua mais nova Encíclica: ‘Laudato Si’ (Louvado sejas), na qual tece reflexões duras e reais acerca dos desmandos do ser humano com relação ao meio ambiente. Digo prontamente que Bergoglio teceu o mais novo cântico das criaturas, agora com versos e refrões melodiados por duras críticas à arrogância humana que denigre a casa comum: a natureza.
No “documento verde” como está sendo chamado, o líder da Igreja Católica bombardeia o atual modelo de desenvolvimento focado no consumismo e na obtenção do lucro imediato. Na mesma redação, denuncia "a incoerência de quem luta contra o tráfico de animais em risco de extinção, mas fica completamente indiferente perante o tráfico de pessoas, desinteressa-se dos pobres ou procura destruir outro ser humano do qual não gosta”.
Clama o Pontífice: “Salvar o Planeta é salvar os pobres”. Eles são as principais vítimas das sequelas deixadas por invasões de terras indígenas, destruição de florestas, contaminação de rios e mares, uso abusivo de agrotóxicos e de energia fóssil.
No discorrer da Encíclica, interroga-se: O que está acontecendo com nossa casa? Afirma o Papa: “basta olhar a realidade com sinceridade para ver que há uma deterioração de nossa casa comum”.
Nessa parte, incorpora os dados mais consistentes com referência às mudanças climáticas, à questão da água, à devastação da biodiversidade, à danificação da qualidade da vida humana e à degradação da vida social; denuncia a alta taxa de iniquidade planetária, afetando todos os âmbitos da vida, sendo que as principais vítimas são os pobres.
O Teólogo Leonardo Boff pontua: “O espírito terno e fraterno de São Francisco de Assis perpassa todo o texto da Encíclica ‘Laudato si’. A situação atual não significa uma tragédia anunciada, mas um desafio para cuidarmos da casa comum e uns dos outros. Há no texto: leveza, poesia e alegria no Espírito, e inabalável esperança de que se grande é a ameaça, maior ainda é a oportunidade de solução de nossos problemas ecológicos”.
“Todo o Universo material é uma linguagem do amor de Deus. O solo, a água, as montanhas: tudo é carícia de Deus. Que o nosso tempo seja lembrado pelo despertar de uma nova reverência face à vida, pelo compromisso firme de alcançar a sustentabilidade e pela intensificação no compromisso pela justiça e pela paz e pela alegre celebração da vida”. (Papa Francisco).
Francisco de Assis recebeu a missão de reconstruir a Igreja que tinha perdido a sua identidade. Nos tempos hodiernos, o Francisco de Roma recebe a mesma incumbência pelo próprio Espírito que sopra e o conduz. Ao concluir esse relato, chegamos a uma única certeza: a nova Encíclica tem um poder de revolução cultural bastante significativo.
Sabemos que desde a origem do mundo, o Criador confiou ao homem a incumbência de cultivar, de cuidar e de preservar a criação; hoje, depois de degustarmos esse clamor, sentimo-nos atraídos em responder a uma pergunta: que mundo queremos deixar para os nossos sucessores? Penso que a melhor alternativa é se juntar forças com os Franciscos de Assis e de Roma e, assim, tornarmo-nos amigos da irmã natureza que geme em dores de Parto!
A12 29-06-2015

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