terça-feira, 10 de setembro de 2019

Amazônia: alvo estratégico do capitalismo; é preciso amazonizar o mundo

Pedro Ribeiro de Oliveira
Sociólogo, membro da Coordenação Nacional do Movimento Fé e Política

O sociólgo Pedro Ribeiro de Olveira, do Movimento Fé e Política, escreve sobre "uma nova batalha da guerra de 4ª geração entre as grandes corporações mundiais e a parcela do Humanidade que se define como responsável pela vida da Terra e se coloca em defesa dos seus Direitos". No centro, a Amazônia, Ele propões uma saída para o falso dilema da "internacionalização versus patriotismo": "Não internacionalizar a Amazônia: amazonizar o mundo"
9 de setembro de 2019, 15:09 h Atualizado em 9 de setembro de 2019, 15:35
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(Foto: Cadu de Castro)

Os incêndios florestais do mês de agosto representaram um sinal de alarme: a principal reserva ecológica da Terra sendo consumida pelas bordas, sem que o governo brasileiro tomasse providências. Declarações estapafúrdias do Presidente da República deixam transparecer que esse desastre não é fruto de descaso com a Amazônia e seus povos, mas um evento inserido no processo global de apropriação privada de bens-comuns: água, minérios, biodiversidade e terras para a agropecuária. 

Na Análise de conjuntura publicada no site do Fé e Política em abril passado usei o conceito de guerra de 4ª geração ou guerra híbrida – aquela que emprega estrategicamente a informação como arma de combate a um poder definido como “hostil” – para explicar o impeachment de Dilma como fruto da aliança entre corporações petroleiras e financeiras dos EUA e os muito ricos brasileiros. A queda daquele governo definido como “hostil” abriu as portas ao capitalismo ultraliberal, com as privatizações na área do petróleo, e em seguida a radicalização anarcocapitalista de Bolsonaro-Paulo Guedes, que visa suprimir todo constrangimento imposto pelo Estado republicano e democrático ao mercado. 

Devo reconhecer, porém, que me surpreende a improvisação na execução desse projeto, pois o governo de Dilma Rousseff já vinha buscando a integração da Amazônia ao sistema capitalista e bastaria implementá-lo sem truculência para em médio prazo fazer da Amazônia grande fonte de lucros para o capital, sem o risco de uma catástrofe ambiental. Vejamos então mais de perto o que está em curso hoje no Brasil, tendo presente que aqui está apenas uma parte do bioma amazônico.

O desmantelamento da FUNAI e a nomeação de Ricardo Salles para o Ministério do Meio Ambiente foram um recado de que seriam suspensos os entraves fiscais e administrativos à exploração das chamadas riquezas naturais. Para bom entendedor, meia-palavra basta: se não há fiscalização nem repressão, a apropriação privada de bens-comuns os transforma em mercadorias valiosas. Afrouxada a fiscalização, especuladores, madeireiros, garimpeiros, grileiros e outros transgressores sentem-se liberados para invadir territórios indígenas, reservas ambientais ou promoverem queimadas em suas terras e terras vizinhas.

Outro passo, em continuidade com iniciativas ensaiadas durante o governo Temer será a privatização – ao menos parcial – de reservas ambientais, especialmente aquelas que se mostrem ricas em reservas minerais ou com potencial para a biotecnologia. Paralelamente, abrir concessões para exploração mineral em territórios de povos originários, mesmo que ameace sua sobrevivência enquanto povos. Passo de grande crueldade, que esperamos não venha a ser dado, seria a extinção de Povos Isolados, seja por estrangulamento ambiental, seja por massacre, porque um território não habitado não teria motivo legal para ser preservado.

Enfim, o passo decisivo será o favorecimento à implantação de grandes empresas em toda a Amazônia, especialmente em territórios de Povos Originários, com o estímulo a seus chefes para se tornarem empresários. Combinando-se tal incentivo com a atração de grandes capitais do Exterior, em pouco tempo a Amazônia estaria loteada entre empresas capitalistas. Com sede no Brasil, é claro, mas com grande aporte de capitais externos. 


Esse exercício de futurologia tem por base a doutrina do choque, formulada por Naomi Klein: desastres – naturais ou provocados – interessam ao mercado capitalista porque ele se apresenta como o remédio mais eficaz para sua recuperação social e econômica. O raciocínio é de tipo “já que a floresta está queimada, vamos aproveitar a terra para produzir de modo mais moderno”. Para legitimá-lo bastaria uma eficiente campanha de informações pela grande mídia e pelas redes virtuais em favor do “desenvolvimento sustentável” de Povos Originários que se transformem em gerentes da produção mineral ou agropecuária em seus territórios. 

Seria esta uma guerra de 4ª geração entre o capitalismo globalizado e os defensores e defensoras da Amazônia. Nela não há invasão armada, como nas guerras do passado, nem agentes infiltrados entre Povos Originários para declarar sua independência e formar uma nação soberana, como parecem temer nossos militares. Ao contrário, as grandes empresas seriam formadas com todo apoio do governo brasileiro e de suas Forças Armadas, garantindo a propriedade privada. E o aumento da exportação de commodities seria a melhor prova do acerto dessa política de crescimento econômico anarcocapitalista.

Contra esse projeto alinham-se diferentes organizações de defesa dos Direitos Ambientais e Humanos, hoje contando com a decidida participação do Papa Francisco, cuja intuição de fazer da Amazônia tema do próximo sínodo da Igreja Católica revelou-se genial. À primeira vista, o capital financeiro em busca de aplicação segura é disparadamente mais forte do que essa parcela da Humanidade que não abre mão de sua humanidade e de sua solidariedade com a Terra e seus Povos; um olhar atento, porém, revela que a força dos fracos é bem maior do que parece.


Primeiramente, é preciso considerar que os segredos da guerra de 4ª geração começam a ser desvendados e seus instrumentos em breve poderão ser utilizados também pelos grupos que defendem a Ecologia Integral e os Povos da Amazônia. As redes informáticas da internet, que até pouco tempo estavam inteiramente a serviço das grandes corporações, começam a ser usadas também no sentido oposto: em lugar da propaganda baseada no manejo de emoções, elas podem ser veículo de informações que têm ao mesmo tempo fundamento real e apelo simbólico, como são as mensagens emitidas por pessoas de grande autoridade moral. Nesse embate, a probabilidade de vitória da verdade sobre a propaganda não é mero desejo piedoso.

Finalmente, é preciso considerar que a ameaça à Amazônia traz à tona duas forças sociais de forte poder mobilizador: Povos Originários e a juventude. A primeira já está na cena política há pelo menos quatro décadas, mas agora vem ganhando vulto a coordenação entre diferentes Povos, inclusive do Exterior. Novidade é a mobilização da juventude, agora puxada pela adolescente sueca Greta Thunberg. Seu apelo aos adultos é contundente: “assumam sua responsabilidade! Adolescentes somos nós, não vocês!”. É preciso levar em conta a força moral desses dois novos atores no cenário político, sobretudo num conflito de informações, quando a credibilidade de quem fala é crucial.

Se esta análise é correta, estamos diante de uma nova batalha da guerra de 4ª geração entre as grandes corporações mundiais e a parcela do Humanidade que se define como responsável pela vida da Terra e se coloca em defesa dos seus Direitos. Dessa batalha pode resultar uma novidade inesperada, muito bem formulada por uma pesquisadora nativa da Amazônia: Não internacionalizar a Amazônia: amazonizar o mundo 

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