Padre Geovane Saraiva*
A palavra que melhor define o meu discurso nesta noite é
“agradecimento”. Agradecer nesta noite é o meu dever, dever na condição de
sacerdote da Igreja Católica e de cidadão brasileiro, com a segura convicção de
que somos
peregrinos do absoluto em meio às coisas passageiras, a caminho do definitivo,
da glória futura.
Para
mim, é honraria que vai além das minhas expectativas mais otimistas de
reconhecimento de meu desempenho na vida pública e sacerdotal. Confesso-me,
pois, profundamente envaidecido. Esconder tal sentimento seria faltar com a
sinceridade e a modéstia. Porém, percebo, com imensa humildade, que de agora em
diante pesa sobre nós agraciados com esta homenagem da ALMECE uma
responsabilidade ainda maior de bem desempenhar o papel social, e eu na missão
sacerdotal, que nos é reservado nesse desafiante teatro da vida.
Sou
um sacerdote de origem simples e humilde. Sempre procurei realizar a vontade de
Deus, através da oração, da leitura e do cuidado com povo de Deus, no anúncio
do Evangelho, há 23 anos, nesta cidade Fortaleza. De alguns anos para cá
também escrevendo livros e artigos para jornais, revistas e sites, na minha
especialidade e função de sacerdote, é claro, com um particular cuidado de
permanecer sempre fiel à fé católica (cf. 2Tm 1, 12-16). É meu dever ter
consciência de que a fé é o elemento imprescindível, ao anunciar as verdades da
nossa fé, como nos assegura o profeta Ezequiel: “velarei sobre as minhas
ovelhas, diz o Senhor; chamarei um pastor que as conduza e serei o seu Deus”
(Ez, 34, 11-23).
Jesus
nos indica caminhos novos e nos liberta para que possamos ir ao encontro dos
irmãos e irmãs. Foi assim que ele fez com os profetas de todos os tempos –
seduzindo-os e burilando-os na intimidade do seu amor e, depois, lançou-os no
meio do povo, com o objetivo claro e definido: testemunhar seu amor infinito,
libertador e redentor (cf. Jr 20, 7).
Hoje me credencio
para esta Academia de Letras dos Municípios do Estado do Ceará (ALMECE), na
qualidade de Acadêmico Honorário, certamente por causa da minha contribuição em
destacar, através dos meus escritos as duas figuras humanas, profundamente
marcadas pela graça de Deus, que agora destacamos, Dom Helder Pessoa Câmara e
Dom Aloisio Cardeal Lorscheider, pastores que edificaram a casa de Deus, isto é,
a Igreja, tendo como alicerce sólido o bem e a justiça, não cedendo às ciladas
dos injustos e poderosos. Neles a profecia de Jeremias se realiza: “Eu vos
darei pastores segundo o meu coração, que vos conduzam com sabedoria e
inteligência” (Jr 3, 15). Anunciaram a boa nova da Salvação em toda sua
plenitude, a partir da dor e do sofrimento de uma multidão de irmãos e irmãs. O
entusiasmo e a mística desses grandes sacerdotes causaram e continuam a causar
profundas marcas de generosidade, sempre crescente, nas pessoas que exerceram e
exercem suas funções nos mais diversificados setores de nossa sociedade.
Guardemos no íntimo do coração a mensagem de otimismo e esperança,
deixada por Dom Helder Câmara, o artesão da paz e cidadão do mundo, o bispo
brasileiro mais influente no Concílio Vaticano II, ao abrir o caminho para a
renovação, na sua mais profunda e autêntica coerência em favor dos pobres: “Se
não engano, nós, os homens da Igreja, deveríamos realizar dentro da Igreja as
mudanças que exigimos da sociedade”.
Falou também com extraordinária paixão que Deus é amor, em tom
daquilo que lhe era muito peculiar, a poesia: “Fomos nós, as tuas criaturas que
inventamos teu nome!? O nome não é, não deve ser um rótulo colado sobre as
pessoas e sobre as coisas... O nome vem de dentro das coisas e pessoas, e não
deve ser falso... Tem que exprimir o mais íntimo do íntimo, a própria razão de
ser e existir da coisa ou da pessoa nomeada... Teu nome é e só podia ser amor”.1
Ao
assumir a Arquidiocese de Olinda e Recife, em abril de 1964, afirmou: “Ninguém
se escandalize quando me vir ao lado de criaturas humanas tidas como indignas e
pecadoras (...). “Quem estiver sofrendo, no corpo ou na alma; quem, pobre ou
rico, estiver desesperado, terá lugar especial no coração do bispo”.2
Dom
Helder além de deixar uma gigantesca obra escrita, com grande sabedoria soube
unir, numa síntese raríssima e feliz o místico e o homem da ação, que
contemplava e escrevia ao mesmo tempo durante as madrugadas e agia pela manhã,
tarde e noite. Foi um articulador da melhor qualidade; dotado de uma fé
clamorosa, de uma enorme capacidade de comunicação, força e convicção
inabaláveis, que saía de dentro do peito magro, daquele homem baixo e franzino
na estatura, que parecia o retirante de Portinari.
Profeta
dos pobres, artesão da paz, cidadão do mundo, o homem dos grandes sonhos e das
grandes utopias ele o foi, a sinalizar uma verdadeira conversão, nas mudanças
dos costumes, no sentido de uma melhor compreensão da Igreja, na busca de sua
renovação, do seu rejuvenescimento – ao verdadeiro “aggiornamento”, ao mesmo
tempo, em que devia anunciar a pessoa de Jesus Cristo, diante do clamor dos
empobrecidos, dos “sem voz e sem vez”.
O
grande ardor e entusiasmo desse homem, em todo seu trabalho bem articulado, no
amor pela Igreja pobre e servidora, nunca podemos negar e esquecer. “Sou
daqueles que tem a convicção de que os escritos de Dom Helder ainda serão fonte
de inspiração na América Latina, daqui a mil anos”.3
Já
Dom Aloísio, que no seu amor à verdade e no apego ao Evangelho, como critério
de vida e de pastoreio, também na sua capacidade de dialogar com as classes
sociais e no seu amor para com os empobrecidos, permaneceu humilde, serviçal,
sendo um irmão entre irmãos.
Doçura
e ternura em pessoa, alegria constante, posições corajosas e determinadas, ao
mesmo tempo, pregava e anunciava o Evangelho com coragem profética e grande
sabedoria. Ele carregou sempre no seu grande coração, as alegrias, as
esperanças, as tristezas, as angústias e os sofrimentos de sua querida gente
(cf. GS 200). Além de travar, sem jamais se cansar, uma luta pela
redemocratização, pela liberdade de expressão, pela dignidade da pessoa humana
e pelo fim da tortura em nosso querido Brasil.
Dom
Aloísio, ao se tornar Arcebispo de Fortaleza (1973-1995), logo de início
afirmou: “A comunidade eclesial não é feudo do bispo, mas ele é o servidor de
uma Igreja que se entende a si mesma como sacramento do Reino, isto é, da
presença da verdade e do amor infinito de Deus para com cada criatura humana”.4
Daí
ele não compreender como algo natural e normal se conviver com a miséria e o
acentuado empobrecimento do povo, que tinha como conseqüência o êxodo, o
flagelo e a morte de muitos irmãos, levantando sua voz de profeta para dizer
que não era vontade de Deus a realidade aqui encontrada e, ao mesmo tempo, usou
de todos os meios, com uma enorme vontade de transformar essa mesma realidade,
marcando profundamente a história do nosso Ceará.
“Em pleno
regime de exceção, a sociedade cearense logo sentiu os efeitos dessa guinada.
As camadas desfavorecidas ou marginalizadas, os sem-terra, os sem-teto, os
presos políticos, os presidiários comuns, os trabalhadores em greve – ganharam
aliado de peso”.5
Dom
Aloísio foi o grande teólogo que sabia compreender a realidade na sua
conjuntura e, com suas posições bem claras e definidas, nas análises e nas
conclusões teológicas pastorais, passando para o povo um clima que favorecia e
gerava uma confiança generalizada. Daí ser o Cardeal que mais se destacou em
todos os Conclaves e Sínodos de que participou, gerando para o mundo inteiro e,
especialmente para a imprensa, uma grande expectativa. Sua palavra corajosa e
profética era acolhida por todos como uma boa notícia.
“[...]
sua voz, naturalmente doce, alternava-se quando era preciso confrontar os
vendilhões da justiça, quando todos os jardins da democracia corriam o risco de
ser alvo de bombas atiradas pelos olhares fixos da repressão. Sua voz ecoou
pelos corredores das prisões [...]”.6
Quando ele se tornou
bispo emérito de Aparecida, veio a pergunta: O que o senhor vai fazer?
Respondeu: “Sou um simples frade menor e vou fazer o que o meu provincial
mandar, porque a obediência me torna livre”.
Também
nunca esquecemos sua palavra lúcida e segura, advertindo “oportuna e
inoportunamente” (2Tm 4, 2), bem como sua voz mansa e corajosa em denunciar as
injustiças e, sobretudo, sua ternura franciscana, nos leva a afirmar que Dom
Aloísio, verdadeiramente, mora em nossos corações.
Peçamos então a Deus,
que na sua infinita e inesgotável bondade, chamou Dom Helder e Dom Aloísio à
missão de profetizar, que sempre os tenhamos como referências, iluminando-nos e
fazendo-nos sempre mais compreender a indispensável força de sua graça, num desejo
de nos tornar capacitados a fermentar este mundo em que vivemos na sua
realidade cultural e social, que tanto desafia a humanidade.
_______________________
1 Câmara, Dom Helder. Em tuas mãos,
Senhor! Paulinas. São Paulo, 1986, p. 11.
2 Ibidem. Dom Helder: o artesão da
paz. Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2009, p. 88.
3 Saraiva, Geovane (padre). A
ternura de um pastor: Cardeal Lorscheider. Fortaleza: Editora Celigráfica,
2009, p. 35.
4 Tursi, Carlo; Frencken, Geraldo
(organizadores). Mantenham as lâmpadas acesas: revisitando o caminho, recriando
a caminhada. Fortaleza: Edições UFC, 2008, p. 95.
5 Saraiva, Geovane (padre). A
ternura de um pastor: Cardeal Lorscheider. Fortaleza: Editora Celigráfica,
2009, p. 22
6 Ibidem, p. 23
*Padre da Arquidiocese de Fortaleza, Escritor, Membro da
Academia de Letras dos Municípios do Estado Ceará (ALMECE), da Academia
Metropolitana de Letras de Fortaleza e vice-presidente da Previdência
Sacerdotal.
Pároco de Santo Afonso

Nenhum comentário:
Postar um comentário