Padre
Geovane Saraiva*
“Das
barreiras a romper, a que mais custa, mais importa, é sem dúvida, a barreira da
mediocridade”, afirmava Dom Helder. Ele que tem muito a nos dizer e ensinar, ao
sonhar com uma Igreja totalmente aberta ao Espírito, pobre e servidora, nós que
procuramos mergulhar na sua vida, por ocasião do centenário de seu nascimento
(1909 -2009).
Desde
a juventude, Dom Helder mostrou-se determinado e comprometido com a realidade
social, com os empobrecidos, nunca se esquecendo do conselho de seu pai, ao
manifestar-lhe seu desejo de ser padre: “Meu filho, você sabe o que é ser
padre? Lembre-se que Padre e egoísmo nunca podem andar juntos. Padre tem que
gastar-se, deixar-se devorar”.
Entrou
para o Seminário da Prainha, estudou muito e foi ordenado sacerdote em 1931.
Deixou o Ceará em 1936 para abraçar, como padre novo, cheio de sonhos e
disposição interior, uma nova missão sacerdotal na cidade do Rio de Janeiro,
como técnico em educação do Distrito Federal. Ao receber o convite para a nova
função, seu bispo lhe aconselhou, dizendo: “Meu filho, é Deus, é Deus que está
lhe chamando para o Rio de Janeiro. Aceite o convite! Vá, meu filho, vá!”.
Foi
para o Rio de Janeiro, trabalhou, trabalhou e ficou conhecido como o bispo das
favelas. Mas seu superior, Dom Jaime de Barros Câmara, não gostava, não achava
bom e reclamava do seu contato aberto, ao se dirigir as pessoas, dizendo: “O
senhor não pode fazer isso. Um bispo da Igreja é um príncipe e um príncipe não
pode se misturar”. Mas Dom Helder adorava se misturar! “Quantas vezes eu celebro em área de miséria
e o meu povo canta: O Senhor é o mau pastor, e nada me pode faltar. Eu olho ao
seu redor e vejo que está faltando tudo”.
Dom
Helder confidenciou: Uma de minhas maiores emoções, em toda minha vida, foi
quando da abertura da primeira sessão do Concílio Vaticano II (1962 -1965). Em
sua aula inaugural, o Papa João XXIII disse com força: ‘Aqui estamos para a
nossa conversão’ e ele mesmo se incluía. Isso significava que nós, cristãos,
padres e bispos e até o Papa, que precisávamos voltar às origens do
cristianismo e a reaprender o Evangelho. A beber novamente da fonte d’água da
vida que é o próprio Deus.
Foi
o bispo brasileiro mais influente em todo Concílio Vaticano II, com grande
mérito de abrir, para a Igreja, o caminho de renovação, da Igreja povo de Deus
e que a mesma tinha que ir ao encontro dos sofredores e empobrecidos, dos “sem
voz e sem vez”. Dizia ele: “Se eu não me engano, nós, os homens da Igreja,
deveríamos realizar dentro da Igreja as mudanças que exigimos da sociedade. Não
pense que Deus ajuda a miséria. Deus não aprova as injustiças. As injustiças
sociais são problemas nossos”.
No
Século passado, Dom Helder foi a pessoa, entre todos os brasileiros, mais
conhecida no exterior. Depois de Edson Arantes do Nascimento (Pelé) e Juscelino
Kubitschek, foi ele, sem dúvida, o nome sobre o qual mais se perguntava fora do
Brasil.
Depois
que passou o seu centenário, somos convidados a olhar para a sua vida, o dom
maior que a Igreja do Brasil já produziu, e ao mesmo tempo, acolhê-lo como um
tesouro ou pérola preciosa, porque seu jeito de viver nos coloca bem dentro
proposta do Reino. É importante olhar para a convicção vocacional de Dom
Helder, para o brilho de sua sabedoria, com raríssimas qualidades:
inteligência, criatividade, perspicácia, e espírito de liderança e, ao mesmo
tempo, com um incontestável amor por todas as pessoas do planeta, marcadas pela
dor e sofrimento de toda natureza.
O
pastor dos empobrecidos, apaixonado por Deus e suas criaturas, percebeu com
clareza o caráter universal da salvação, em toda criação, como templo de Deus,
e que nela os pobres não renunciam nunca
o direito de viver e a utopia de sonhar e viver com esperança. Jesus, o Filho
de Deus, não é um mito ou uma fábula, e sim, senhor da vida e da história, a
iluminar a humanidade. Em Dom Helder os pobres vivem!
*Padre da Arquidiocese de
Fortaleza, Escritor, Membro da Academia de Letras dos Municípios do Estado
Ceará (ALMECE), da Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza e
vice-presidente da Previdência Sacerdotal.
Pároco de Santo Afonso
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