sexta-feira, 23 de março de 2018

Francisco e a nova crise que abala o Vaticano

domtotal.com
Uma das semanas mais 'sombrias' do pontificado
Cabe a Francisco repensar uma estratégia para que nada mais ponha em descrédito a via da verdade e da transparência tomada voluntariamente por ele.
Cabe a Francisco repensar uma estratégia para que nada mais ponha em descrédito a
 via da verdade e da transparência tomada voluntariamente por ele. (Reuters)
Por Mirticeli Dias de Medeiros*

Em 2013, quando esteve no Brasil, papa Francisco, em entrevista concedida à rede globo, respondeu o seguinte ao ser questionado sobre os escândalos envolvendo prelados da cúria romana: “Faz mais barulho uma árvore que cai que uma floresta que cresce”. Ele quis dizer que não é possível que em uma instituição - no caso, a Igreja Católica - todos aqueles que a integram sejam corruptos ou ajam de má fé. Certamente, ele quis reiterar que em toda e qualquer organização composta por seres humanos, há bons e maus, os benditos joio e trigo que crescem juntos, como diz o Evangelho. Por outro lado, é inegável que a cúria romana, com o passar dos anos, incorreu em uma série de vícios, muitos deles resquícios da era renascentista. E seria um desafio para qualquer papa tentar mexer nesse tipo de estrutura. Francisco entrou consciente nessa empreitada e já apresenta sinais de desgaste bastante evidentes. Inicialmente, ele recebeu o auxílio do seu predecessor, Bento XVI, que lhe transmitiu um bem elaborado “caminho das pedras”, em 2013. Sendo assim, podemos dizer que, hoje, graças a esse trabalho em conjunto, há um arquétipo de reforma.

Como nenhuma realidade eclesial está imune a certos tipos de “tentações”, o que acontece em Roma, o centro da fé católica, pode acontecer no Brasil, a terra que inspirou o pacto das catacumbas. Se confirmado o caso envolvendo o bispo de Formosa-GO, cujo veredicto virá com a conclusão do processo, será só mais uma demonstração do que foi apresentado no parágrafo anterior e o reforço de que os discursos de Francisco, nos quais ele faz uma verdadeira hermenêutica da corrupção, não são feitos ao léu. Além disso, Francisco recebe em sua mesa, diariamente, muito mais informações do que se pensa e trabalha com a fusão de organismos vaticanos justamente para melhor controlá-los.

As reformas realizadas na era contemporânea - com destaque para aquelas de Paulo VI e João Paulo II - visaram colocar em prática o espírito do Vaticano II e internacionalizar os dicastérios, porém, talvez, a criação de uma infinidade de organismos acabaram contribuindo proporcionalmente, não de forma intencional, a abrir espaços para uma maior difusão do ‘carreirismo romano’, até pouco tempo, um privilégio de poucos. Todos passaram a ter acesso à “romanidade exuberante” que encanta, atrai e ainda ostenta uma certa credibilidade perante a sociedade. Por conseguinte, não é nenhuma novidade para os moradores de Roma depararem-se com alguns poucos padres, que atraídos pelos encantos da máquina vaticana, acabam arrumando mil e uma maneiras para não retornarem às suas dioceses de origem, de modo que possam usufruir pelo menos da “orla do manto” dos sagrados palácios e iniciar uma carreira promissora no Vaticano. Apesar disso, é de se evitar qualquer generalização, uma vez que tantos sacerdotes que aqui estudam, por exemplo, testemunham uma vida de renúncia e levam adiante a sua missão da maneira mais coerente possível alla Francesco - ao modo Francisco. 

Podemos dizer que esta semana, para o Vaticano, foi uma nova “settimana nera”, fazendo alusão àquela vivida por Paulo VI durante o Vaticano II. Mons. Dario Viganò, o então responsável pela ponta de lança da reforma de Francisco, ou seja, a comunicação, apresentou sua demissão. Algo muito sério, se pensarmos na proposta da reforma. Porém, apesar do motivo ter sido o escândalo envolvendo a omissão de trechos da carta escrita por Bento XVI, ele cumpriu o seu papel: a de reforçar a imagem do pontífice atual. Uma excelente estratégia não só para a Igreja, mas para o cristianismo, dada a importância que a figura do papa representa. Entendeu-se que em tempos nos quais a instituição sofria um leve descrédito, como foi o caso dos últimos dois anos de pontificado de Bento XVI e todo o desenrolar do escândalo Vatileaks, era hora reforçar a imagem unificadora e carismática do papado. Isso Viganò conseguiu, mas acabou exagerando em torno de algo que já estava consolidado.

 Agora, cabe a Francisco repensar uma estratégia para que nada mais ponha em descrédito a via da verdade e da transparência tomada voluntariamente por ele. Agora resta saber quem entre os seus colaboradores, na cúria e fora dela, estão dispostos a percorrê-la.

*Mirticeli Dias de Medeiros é jornalista e mestre em História da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Desde 2009, cobre primordialmente o Vaticano para meios de comunicação no Brasil e na Itália, sendo uma das poucas jornalistas brasileiras credenciadas como vaticanista junto à Sala de Imprensa da Santa Sé.

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