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Encontro inesperado com um homem para quem a natureza existe para ser protegida e amada.
Por Ricardo Soares*
Então, havia uma estrada tortuosa que, de bonita, ficou linda, quando num declive acentuado se viam hortênsias, muitas hortênsias, um mar de hortênsias. Em pleno encantamento pelo inusitado da cena, ela, numa alegria nada muda e muito infantil, pediu para que o carro estancasse. Não dava. Ele seguiu em frente e, ao encontrar o local propício, fez o retorno e voltou para o local exuberante onde reinavam as hortênsias.
Diante da paisagem impressionante, ela literalmente saltitava, ao bater dezenas de fotos. Mesmo vendo, não dava pra crer em tamanho espetáculo da natureza. Touceiras de hortênsias, fios delicados de pequenos riachos que corriam entre elas, pedras ornamentais que transformavam tudo num cenário de filme paradisíaco. E tudo ali, ao alcance dos olhos, para deleite dos motoristas que passavam na estrada defronte, mas não reparavam na belezura daquilo.
Eis que, entretido com a cena, ele esquece o carro diante do portão da entrada do sítio que continha essas maravilhas. Foi quando chegou o proprietário, tipo reservado e contido, que logo se abriu em simpatias quando soube do apreço que o casal tinha por hortênsias, bichos e natureza. Era apenas um singelo e pueril capítulo de uma crônica de um sábado não prenunciado mas que deu muita satisfação a todos.
Madeira, o nome do proprietário, se abriu em explicações sobre como montou tão lindo espetáculo natural e, por fim, convidou o casal a conhecer os seus bucólicos domínios na beira da estrada. E aí o casal viu além das flores. Viu o caseiro que cuida de tudo junto com o Madeira, viu os cães, os gatos, um lindo macaco prego recuperado da maldade que os homens lhe faziam. E viu um tanque com carpas, um lago com tartarugas e outro maior com peixes de comer, como pacus. Sucede que o Madeira não mata seus peixes, nem os de comer. Crê, piamente, que somos apenas mais uma espécie sobre a Terra e isso não nos dá direito de matar as outras, nem que seja pra comer.
Por fim, logo após as despedidas, o casal inebriado se perguntava se o Madeira não seria um ser trans-dimensional. visto que sendo tipo tão raro, silencioso e desapegado, nem parece pertencer a esse mundo. Hipótese absurda ou não, fato é que Madeira fez o casal refletir sobre a simplicidade das boas coisas da vida onde existem cada vez menos Madeiras no sentido real e figurado do termo já que a devastação ambiental está aí pra comprovar o trocadilho.
Na casa do Madeira, não tem luz, não tem televisão, não tem internet, não tem conexão. Madeira, mesmo assim, está antenado com o melhor dos mundos. Justamente por isso, o casal resolveu não dizer onde mora o Madeira, onde fica o seu paraíso das hortênsias. Ele não gostaria de fazer publicidade do seu refúgio ambiental para não atrair os gafanhotos. No mais, Madeira nem Madeira chama. Tem outro nome. Igualmente duro como madeira mas menos poético.
* Ricardo Soares é diretor de TV, escritor , roteirista e jornalista. Titular do blog Todo Prosa (www.todoprosa.blogspot.com) e autor , entre outros, dos livros Cinevertigem, Valentão e Falta de Ar. Atualmente diretor de Conteúdo e programação da EBC- Empresa Brasil de Comunicação.
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