quinta-feira, 28 de abril de 2022

Igreja sinodal e servidora

 Pe. Geovane Saraiva*

O processo de uma Igreja sinodal, segundo o desejo do Papa Francisco, é o do encontro, da escuta, da comunhão, da participação; Igreja da unidade na diversidade, sempre em estado de missão, que quer o ardor de todos na missão, para que caminhem juntos, em comunidade, na vivência dos sacramentos, em atitude de escuta da Palavra de Deus, colocando o irmão no centro, vendo-o na sua dignidade de filho de Deus. Assim sendo, somos, portanto, a Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo, na qual a pedra angular é o elemento essencial da nossa razão de ser e de existir, o fundamento sólido e seguro da construção.

A Igreja sinodal é essencialmente servidora, uma comunidade que caminha, alimentando-se da fé verdadeira, por isso mesmo ela é constituída de pessoas voluntárias e disponíveis, exigindo delas renúncia, doação, generosidade; e elas estão voltadas exclusivamente para Jesus, que é caminho, verdade e vida. Ele soube dizer sim aos apelos do Pai e revelou sua face terna e amiga, sendo essa Igreja mistério de amor, sinal e presença do Reino de Deus.

Não se pode prescindir, numa Igreja sinodal, de que somos chamados de pedras vivas, e Cristo conta conosco como protagonistas indispensáveis nesta construção espiritual, que é a Igreja. Nela, todos são importantes; ninguém é descartável ou inútil. Pensar na Igreja como algo belo e maravilhoso, tendo Cristo como pedra angular de seus discípulos e seguidores, que são pedras vivas neste edifício espiritual, numa forte simbologia indicativa da utilidade das pessoas na Igreja de Cristo.

Numa Igreja sinodal, quer-se a compreensão e o esforço dos cristãos, ao solicitar dos seus filhos, no âmbito da liberdade de todos e de cada um, nossas obrigações e vínculos, a concretude de pedras vivas. Ao mesmo tempo em que estamos desejosos de mais clareza e convicção, conscientes de que, com Cristo, formamos o referido edifício espiritual, participamos do seu sacerdócio santo, para com ele reinarmos associados à sua vida divina, a fim de oferecermos sacrifícios espirituais agradáveis a Deus Pai (cf. Pd 2, 5).

Na acolhida dos frutos colhidos e partilhados, pela vivência da fraternidade e do amor-comunhão, a partir do Sol da justiça e da paz, que o sonho de esperança do Papa Francisco possa ser realizado, ao ver na terra uma Igreja renovada, pacificada e reconciliada. Assim seja!

*Pároco de Santo Afonso, blogueiro, jornalista, escritor, poeta e integrante da academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF).

quinta-feira, 21 de abril de 2022

A caminho de Emaús

 Pe. Geovane Saraiva*

Somos convidados, neste tempo de Páscoa, a reconhecer e seguir o Senhor ressuscitado, desejosos de um convívio fraterno, com solidária partilha. Ele quer ser presença no nosso meio e quer caminhar com a humanidade, quer revelar o sentido misterioso de sua vida, morto e ressuscitado, de modo especial nas situações exigentes e difíceis. Numa comparação com os discípulos de Emaús, muitas vezes ficamos desiludidos e perplexos, tristes e desanimados, como se a vida não tivesse mais sentido. Cristo, um anônimo e estranho companheiro, se torna amigo de caminhada. Sua presença causou no coração deles algo diferente, tão forte, a ponto de provocar neles uma mudança radical de vida!

A ressurreição é a grande verdade que deve mexer com a nossa vida, assim como aconteceu com as comunidades no início do cristianismo. É uma mística que invade toda a nossa existência, ao mesmo tempo em que se renova a nossa esperança, trazendo para nós um novo sentido. Estejamos certos de que, pela graça do Ressuscitado, experimentamos a certeza da plenitude em Deus, dom maior da vida humana. O Evangelho dos discípulos de Emaús tem a sua parte central na explicação das Escrituras e no anúncio da ressurreição, pelo próprio Jesus, que se tornou nosso irmão, ao revelar seu projeto para a criatura humana. 

Ao ficar conosco, Jesus é aquele que comunica e partilha a vida. Constantemente, está do nosso lado, nas alegrias, nas tristezas e nos desafios da vida, amando cada pessoa, com amor eterno, na sua missão redentora. O Filho de Deus desceu do céu e veio morar entre nós, ao revelar a vontade do Pai, estabelecendo-se no meio da humanidade, e não quer só conversar conosco, mas demonstrar toda a força de seu amor infinito, oferecendo-nos sua amizade e dando-nos sua vida pela nossa realização plena: a salvação.

Os dois discípulos sentiram a necessidade de retornar para junto dos outros e contar a maravilhosa novidade: “O Senhor está vivo! Nós o vimos! Ele nos falou das Escrituras e comeu o pão conosco. Nosso coração ardia pelo caminho” (cf. Lc 24,13-35). O coração deles ardia, consumia-se em chamas e inflamava-se de amor, porque ele é eterno e nele está o sentido da vida, causando neles profundas motivações. Jesus ressuscitou, e os discípulos reconheceram quando ele partiu o pão. Hoje, o Ressuscitado quer ficar conosco, abrir nossos olhos, ficar no nosso meio e caminhar com o seu povo.

Emaús hoje é a nossa comunidade, é o nosso dia a dia. Embora, muitas vezes não reconhecemos Jesus nos caminhos da nossa vida e não acreditamos que está ao nosso lado; também não acreditamos que ressuscitou de verdade. É indispensável um profundo desejo de encontrá-lo, num contexto de desânimo, semelhante ao percurso dos mesmos discípulos de Emaús: falar com o Senhor ressuscitado, ouvi-lo, é maravilhoso!

Que possamos pronunciar esta palavra sagrada: “Verdadeiramente o Senhor ressuscitou!”. Ele quer ser consolo para nossas vidas, força nas nossas dificuldades, luz a iluminar nossos caminhos e, sobretudo, abrir nossos olhos e fazer arder nossos corações. Também é nosso o ardente desejo do encontro com o Senhor ressuscitado, não nos cansando de dizer: “Fica conosco, Senhor!”.

*Pároco de Santo Afonso, blogueiro, jornalista, escritor, poeta e integrante da academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF).

sábado, 16 de abril de 2022

Mistério deslumbrante e fascinante

 Pe. Geovane Saraiva*

Ó Deus, pela maravilha deslumbrante e fascinante da nossa salvação, inaugurada na Páscoa, cabe-nos assimilar sempre mais a largueza da vossa indulgente compaixão! Que o mundo inteiro veja e reconheça o reerguimento do que estava caído, no que era velho e caduco, na restauração e renovação de tudo, no mistério do Filho ressuscitado, início e fim da existência do mundo na sua totalidade (cf. Hb 13, 8). Na mais profunda gratidão daquilo que se irrompe como eclosão da Páscoa, que cresça o fervor do povo de Deus, no mesmo mistério, com a consciência de que só se conseguirá dar passos e avançar no caminho das virtudes, quando se convence  do auxílio da graça que brota do mistério pascal.  

Que a Páscoa do Senhor nos ajude a pensar, numa prece pelos dois anos de pandemia, nas pessoas que morrem no abandono, sozinhas ou, como queira, na solidão, sem o menor cuidado e sem ninguém, na mais completa indiferença, sem nenhum choro ou lágrima derramada. Que a nossa páscoa, na Páscoa do Senhor, seja consequente, a partir do que acontece hoje, por causa da guerra e da violência, pois sabemos que cumprir o preceito de se despedir de seu ente querido é pela distância, e mentalmente, repetindo-se também a prece ou oração que brota do interior das pessoas, pelos mesmos irmãos queridos e demais pessoas que chegaram ao fim da jornada terrena e ao ocaso.

Como importa a todos nós o espírito de esperança pascal a nos desafiar, colocando, na mente e no coração, a proposta da vida divina, afastados da ilusão de uma esperança passageira, no abraço do triunfo da Páscoa eterna. A Páscoa do Senhor, a partir da Vigília Pascal, no dizer de Santo Agostinho, é a “mãe de todas as celebrações”, que, com seus ritos antigos, toda a sua beleza, sua profundidade poética, e ao mesmo tempo profética, devem nos estimular a ir além do rito.

Que Deus nos dê a mesma graça, a de Jesus ressuscitado, para que possamos, nesta Páscoa de 2022, demonstrar solidariedade, ficando perto e ao lado dos enfermos moribundos, sem esquecer dos que sofrem por causa do isolamento. Na dor humana percebe-se, com clareza, um enorme número de irmãos e irmãs que carregam sua pesada cruz. Superar a indiferença é o nosso desafio, ao vivenciarmos a proposta pascal, restando-nos, pois, fé e esperança no Senhor da vida, o verdadeiro sol, aquele que é eterno e que nunca irá se extinguir. Assim seja!

*Pároco de Santo Afonso, blogueiro, jornalista, escritor, poeta e integrante da academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF).

quarta-feira, 13 de abril de 2022

Veneza em Fortaleza!

Bacanas as fotografias da semana, mas sem gôndolas italianas: Veneza em Fortaleza! 
Av. Raul Barbosa com Ten. João Albano, Aerolândia, bem no caminho do Aeroporto Internacional. 
Fotos: Pe. Geovane Saraiva,11 de abril/22.












sábado, 9 de abril de 2022

Fortaleza: Terra da Luz

  Pe. Geovane Saraiva*

Fortaleza é a capital do estado do Ceará, que fica no Nordeste brasileiro. Ela é uma cidade conhecida por suas praias, construções verticalmente arrojadas e requintadas, na área nobre, completando 296 anos neste 13 de abril de 2022. Metrópole batizada como Terra da Luz, ou Loira Desposada do Sol, com quase três milhões de habitantes, é a cidade natal de ilustres e renomados brasileiros, entre os quais Dom Helder Câmara e José de Alencar.

A assertiva do professor e historiador Airton de Farias é pertinente: “É uma cidade de muitos ângulos, lados e formas. Há uma cidade do lado 'Leste', 'bonita', com avenidas largas, prédios elegantes, refinados centros comerciais e espaços de consumo. É a cidade que aparece nas imagens das propagandas oficiais e das empresas de propaganda. Há o Centro, ponto em torno do qual a cidade foi se formando ao longo dos séculos, a partir da antiga Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção. Uma área charmosa, que traz as cicatrizes e as paixões da História e, que nas últimas décadas, sofre com o abandono por parte dos poderes públicos e grandes grupos econômicos, embora ainda pulse, com as multidões atraídas pelo comércio popular ali existente. Existe a Fortaleza 'Oeste', cheia de contradições sociais e de infraestrutura urbana problemática. É a cidade dos bairros populares, da gente trabalhadora, não raro, de pele escura, que batalha e sonha, todo dia, por melhores condições de vida. É a Fortaleza que lembra as contradições de nosso processo histórico, do ontem e do hoje”.

Uma cidade litorânea gloriosa, com lindas atrações turísticas, praças vitalizadas, Shopping Centers atraentes, sofisticados e esmerados, sendo encantadora sua orla marítima! Mas a partir das contradições do seu processo histórico, do ontem e do hoje, esperamos por resposta aos anseios dos que sofrem, sobretudo diante da sensação que temos: de que áreas de riscos não são levadas em conta; elas são, sim, explícitas e escancaradas, começando com a principal via de Fortaleza, a do Aeroporto Internacional.

Como seria maravilhoso, no aniversário de Fortaleza, contar com um pacto do poder público municipal com os moradores desta capital! Seria tão bom colocá-los no centro de todo e qualquer planejamento de melhoria social, econômica, política e cultural! Um governo municipal também incide no estadual e no federal, mas voltado para o futuro de nossa cidade, como um sinal de esperança, quando somos estimulados a interpretar os sinais de Deus, à luz de sua própria palavra, que nos indica uma nova história, um novo futuro para a humanidade.

Que se ponha fim ao domínio dos que pensam numa civilização distante de Deus, com a presença de explorados e exploradores, no desfecho de um povo que se retrai em ser livre e independente. Deus quer superar, dentro do contexto da esperança cristã, aqueles que buscam toldar e obscurecer mentes e corações dos moradores de Fortaleza, numa transigente clemência por uma cidade verdadeiramente reconciliada, perante grandes transformações, longe de todo e qualquer preconceito e intolerância. Parabéns, Fortaleza!

 *Pároco de Santo Afonso, blogueiro, jornalista, escritor, poeta e integrante da academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF).

quinta-feira, 7 de abril de 2022

Acolher o irmão, importuno e inadequado

 Padre Geovane Saraiva*

O Filho de Deus, antes de subir ao Pai, falou com veemência sobre o sacramento da Eucaristia, com a seguinte afirmação: “Eu sou o pão vivo que desceu do céu; se alguém come deste pão, viverá eternamente (cf. Jo 6, 51-71). Temos consciência de que sempre, e por toda parte, a refeição foi símbolo de união. Para nós, cristãos, a refeição salutar por excelência é a Eucaristia, com caráter de sacrifício e de ação de graças, como repetição do sacrifício de Cristo no mistério pascal. No comer e beber da carne e do sangue de Cristo, já experimentamos, pela nossa fé, a eternidade, unidos na recíproca permanência, conforme as palavras do Mestre, que nos leva, não só a compreender seu gesto maior, ao lavar os pés dos discípulos, mas na tarefa desafiadora de procurar fazer o que ele fez, na acolhida ao irmão, quando parece um lapso importuno e inadequado, mesmo no tocar de uma campainha.

São Jerônimo, num comentário sobre o Salmo 102, dizia: “Sou como um pelicano do deserto, aquele pássaro bom que fustiga o peito e alimenta com o próprio sangue os seus filhos”. Ele é o símbolo do sacrifício e da doação de si mesmo. E a Eucaristia é Jesus Cristo mesmo, como pão da vida, do céu e da paz, porque nele está a redenção da humanidade. A principal característica do pelicano é carregar consigo uma bolsa membranosa, prendendo nela o bico, sendo duas ou três vezes maior que seu estômago, com a finalidade de armazenar alimento por um determinado período de tempo. Assim, como a maioria das aves aquáticas, possui os dedos unidos por membranas. Eles são encontrados em todos os continentes, com exceção da Antártida, medindo até três metros de uma asa a outra e pesando até 13 quilos. Os machos são normalmente maiores e possuem bicos mais longos que as fêmeas e alimentam-se de peixes.

Na Europa medieval eram considerados animais especialmente zelosos e alimentavam os filhotes com o alimento tirado da sua própria bolsa e, se chegasse a faltar alimento, eles, num modo de proceder, alimentavam seus filhos com o próprio sangue, gesto este que, por analogia, nos faz pensar no próprio Filho de Deus. Daí o pelicano nos representar, nós que abraçamos a fé, nessa profunda simbologia da Paixão de Cristo, da Eucaristia e da autoimolação do Cordeiro Pascal. Esse tipo de ave costumava sofrer de uma doença, que a deixava com uma marca vermelha no peito. Outra versão é que esse tipo de animal tinha o hábito de matar os seus filhotes; depois disso, ressuscitava-os com seu sangue, o que seria análogo ao sofrimento de Jesus, ao memorial de sua morte e ressurreição.

Jesus Cristo é o pássaro bom e imprescindível, para que nossa Igreja seja verdadeiramente pascal. É por isso que suplicamos: “Ó pássaro bom! Ó pelicano bom, Senhor Jesus!”. Temos consciência de que a Eucaristia é a renovação da aliança do Senhor com a humanidade e que, através dela, se realiza, de um modo contínuo, a obra da redenção. Temos convicção de que a Eucaristia é o sinal da unidade e do vínculo da caridade que, por meio dela, tende toda a ação da Igreja e, ao mesmo tempo, é a fonte de onde emana toda a sua força (cf. SC. 522, 537, 537 e 600). Que o pássaro bom nos ensine a amar mais a Eucaristia, sacramento no qual Jesus se acha presente, com seu corpo, sangue, alma e divindade. Ele é o banquete sagrado, “o pelicano bom a nos inundar com vosso sangue, pelo qual de uma só gota quis salvar o mundo inteiro” (Santo Tomás de Aquino).

Que a nossa fé na Eucaristia possa, não só nos empolgar e nos fascinar em determinados momentos da vida, mas que nos produza um forte desejo de aprender sempre, e cada vez mais, na certeza de vivermos animados na esperança, como bons pelicanos, na renúncia, na doação e na generosidade, como tão bem assertivou Dom Helder: “Que eu aprenda afinal, no mistério pascal, a cobrir de véus o acidental e efêmero, deixando em primeiro plano, apenas, apenas, apenas o mistério da redenção”.

*Pároco de Santo Afonso, blogueiro, jornalista, escritor, poeta e integrante da academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF).


terça-feira, 5 de abril de 2022

Dar conta da esperança

 Pe. Geovane Saraiva*

O Papa Francisco, no primeiro dia de sua viagem a Malta (36ª), de 1º a 3 de abril de 2022, no coração do Mediterrâneo, destacou a importância das portas abertas para a paz, para acolher quem foge da guerra e da miséria. Francisco, com suas alocuções para todas as pessoas de boa vontade, perante uma sociedade que parece contrariar o projeto de Deus, proclamado há dois mil anos por Jesus de Nazaré, rezou para que todos tenham “a graça de um bom coração, que palpite de amor pelos irmãos”.

Como se dar conta da esperança com olhos ao inesperado? A guerra que parecia ser distante da humanidade, tida como “guerra fria”, atingiu em cheio, e diretamente, o mundo. A oração proclamada por Francisco, naquele local do Mediterrâneo, recorda o naufrágio sofrido pelo Apóstolo dos Gentios na Ilha de Malta, no esforço de perceber sinais de um mundo reconciliado: “Ajudai-nos a reconhecer de longe as necessidades daqueles que lutam por entre as ondas do mar, atirados contra as rochas duma costa desconhecida”. Jesus, filho de Maria de Nazaré e do carpinteiro José, quer, neste final de quaresma, na inspiração do Papa, desmanchar a montanha da falta de esperança no mundo.

As ondas do valente mar, na vida das pessoas, mesmo com o seu mais digno argumento da sonhada esperança, por vezes esvaziada, quando, no mundo, na sociedade e na própria Igreja, se percebe esvaziar ou aproximar o distanciamento da vida com a esperança, como dom e graça, no abalo de sua deletéria degradação, quando se transparecem longínquos e remotos o referencial e a meta do monte sagrado, a glória futura. Eis o apelo de Deus para todos: de escutar, na convocação do Papa Francisco, seu clamor solidário, como na assertiva de Dom Helder: “No amor para dar, difundir e semear”.

No mundo, com o estigma da insensatez e da ausência de corações generosos e solidários, mas amparado pelo manto da justiça e da paz, que sejamos impulsionados, à luz da concretude do Evangelho, a mudar nosso estilo de vida. São as guerras nossas de cada dia: no abismo enorme, pelo número incontável de irmãos empobrecidos, na diversidade do mundo, na exclusão social, na dependência química, na autossuficiência e na carência de toda natureza.

*Pároco de Santo Afonso, blogueiro, jornalista, escritor, poeta e integrante da academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF).

domingo, 3 de abril de 2022

No Mundo de Fortaleza

 Airton de Farias*

Fortaleza, com quase três milhões de habitantes, é uma cidade de muitos ângulos, lados e formas. Há uma cidade do lado “leste”, “bonita”, com avenidas largas, prédios elegantes, refinados centros comerciais e espaços de consumo. É a cidade que aparece nas imagens das propagandas oficiais e das empresas de propaganda.

Há o centro, ponto em torno do qual a cidade foi se formando ao longo dos séculos, a partir da antiga Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção. Uma área charmosa, que traz as cicatrizes e as paixões da História e, que nas últimas décadas, sofre com o abandono por parte dos poderes públicos e grandes grupos econômicos, embora ainda pulse, com as multidões atraídas pelo comércio popular ali existente.

Existe a Fortaleza “oeste”, cheia de contradições sociais e de infraestrutura urbana problemática. É a cidade dos bairros populares, da gente trabalhadora, não raro, de pele escura, que batalha e sonha, todo dia, por melhores condições de vida. É a Fortaleza que lembra as contradições de nosso processo histórico, do ontem e do hoje.

Uma Fortaleza de muita fé e de não poucos templos. Entre tantos, não há como deixar de notar a majestosa "Igreja Redonda", ali nas margens da Avenida Jovita Feitosa. Mais que um templo, é uma referência de arquitetura e memória da cidade. Mais que um edifício e local sagrado, é também conhecida pelas prédicas de seu pároco, Geovane Saraiva. Um religioso que pratica uma religião viva, dinâmica, engajada. Padre Geovane aborda e nos traz mensagens revigorantes de Cristo, que se encontra, não acima de ninguém, mas entre as pessoas, entre nós todos. Um Cristo que venceu a morte e se faz presente na solidariedade, no amor ao próximo e na justiça social. Um Cristo distante da fé enclausurada e burocrática destes tempos de falsos mitos, que, por esquecerem o humanismo, acabam turvando os corações das pessoas com palavras vazias.

É com essa sensibilidade, de uma fé redentora e do legado arquitetônico da "Igreja Redonda", que Padre Geovane nos traz mais esta obra. O religioso é um pródigo escritor, com várias obras produzidas abordando questões variadas. Aqui, nestas páginas, nosso autor está em plena forma. A sensibilidade do religioso e sua sagacidade transbordam, ao compreender os muitos espaços de Fortaleza. É uma obra de forte impacto visual, quase um álbum para as futuras gerações, sobre a capital cearense neste começo de século XXI. Com fotos e sínteses inteligentes, Padre Geovane nos apresenta uma Fortaleza em diversas perspectivas, quase como uma metáfora da Igreja em que atua – não ficar no lugar, girar para entender. Uma obra para ser lida e vista com tato, verdadeira materialização do ser e do sentir de um dos mais importantes religiosos desta cidade.

*Professor e Historiador. Mestrado em História pela Universidade Federal do Ceará (UFC), Doutorado em História pela Universidade Federal Fluminense e Pós-doutor pela Universidade Federal do Ceará (UFC).